Acabou a semana. Sobrevivi e bem. Com alguns arranhões e acho que com mais alguns cabelos brancos (sim, desde os 15 anos os cultivo), mas viva e com mais domínio das minhas coisas e vontades.
Agora, no fim da sexta-feira, antes de deitar, resolvi sentar na parte da minha casa que mais gosto e menos fico: a sacada do meu quarto.
Tem um vento gelado. O céu está nublado, não há nenhum estrela no céu.
Lembrei da primeira vez que sentei aqui. A casa ainda estava sendo construída. Cheia de material de construção pelo caminho. Estava quente. Acho que era janeiro. viemos olhar a obra e resolvemos sentar pra um mate. Tinha uma paz. Uma brisa. Eu estava com a sensação de estar em casa, pela primeira vez. E ela era muito melhor do que eu podia imaginar.
Naquela época, a vida já não era mais cor-de-rosa. Eu já tinha as minhas cicatrizes e já lutava pra que as coisas dessem certo. Mas aquela meia-hora de paz, traduzia o que desejava e desejo para minha vida, minhas relações: parceria, simplicidade, cumplicidade, lealdade.
De lá pra cá, foram muitas coisas boas e muitas outras amargas. Decepções, dores, desamores. Mas aquele desejo de uma felicidade baseada no simples, na troca, na verdade permanece em mim.
Ficou frio aqui. Vou deitar que amanhã é mais um dia pra viver e construir a vida.
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sexta-feira, agosto 17, 2012
sexta-feira, agosto 10, 2012
Bola neve
A vida não para... a vida é tão rara.
Nossa... estes últimos 12 meses trouxeram tantas mudanças, revoluções, transformações, mexidas no cotidiano, nas certezas, nas durezas...
É como se o apertar de um botão desencadeasse uma avalanche, uma espécie de bola de neve que ainda não parou e não tenho ideia de onde vai parar.
A cada momento que me parece que ela está cessando seu enrolar (e de me enrolar), algo acontece e ela torna a me envolver num turbilhão que tem me deixado sem ar.
Não é que eu tenha perdido o controle. é que percebi que nunca tive.
São aqueles momentos em que crescer é a única alternativa. Não existe outra opção válida nem dá pra voltar.
Não estou mal com isso. Mas um pouco cansada.
O momento agora é de me reconhecer nessa bola de neve. perceber o que é meu e deve ser tratado por mim e o que não é meu e deve seguir com a bola, quando eu conseguir pular.
Enfim... loucuras de um cérebro louco no início do recomeço.
Nossa... estes últimos 12 meses trouxeram tantas mudanças, revoluções, transformações, mexidas no cotidiano, nas certezas, nas durezas...
É como se o apertar de um botão desencadeasse uma avalanche, uma espécie de bola de neve que ainda não parou e não tenho ideia de onde vai parar.
A cada momento que me parece que ela está cessando seu enrolar (e de me enrolar), algo acontece e ela torna a me envolver num turbilhão que tem me deixado sem ar.
Não é que eu tenha perdido o controle. é que percebi que nunca tive.
São aqueles momentos em que crescer é a única alternativa. Não existe outra opção válida nem dá pra voltar.
Não estou mal com isso. Mas um pouco cansada.
O momento agora é de me reconhecer nessa bola de neve. perceber o que é meu e deve ser tratado por mim e o que não é meu e deve seguir com a bola, quando eu conseguir pular.
Enfim... loucuras de um cérebro louco no início do recomeço.
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segunda-feira, abril 30, 2012
Inverno astral
Último dia de abril.
Outono, ainda, portanto.
Daqui a 28 dias, estou de aniversário. Pleno inferno astral. Mas eis que o clima pelotense resolveu me presentar com uma antecipação do inverno. E assim, estou transformando meu inferno astral em inverno astral, o que, para mim, adoradora do inverno, é muito agradável.
Já comecei a hibernar no final de semana. Curtir a casa e deixar o sol matinal entrar pela janela para esquentar o lar.
Tomar vinho. Até me atrever na cozinha, ando me atrevendo.
Acho o inverno um bom momento para retiros. Me retirar de cena. Me retirar do embate. E simplesmente me aconchegar e saborear o frio.
Com a proximidade do aniversário, começo a fazer minhas listas... amanhã ou depois, posto aqui.
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sábado, março 24, 2012
Felicidade e borboletas...
"A felicidade é como uma borboleta. Quanto mais você a persegue, mais ela se esquiva. Mas se você voltar sua atenção para outras coisas ela virá pousar calmamente nos seus ombros." (Thoreau)
Essa frase me acompanha há muitos anos. Acredito muito nisso.
Entretanto, ando inquieta. Cansada de esperar que as borboletas resolvam pousar. Não conseguindo dar tempo ao tempo. E, por vezes, correndo desengonçada atrás delas.
Ser feliz é paz de espírito. Para estar feliz, tenho que ter capacidade de aquietar a alma, os pensamentos, o coração, o relógio. Mas como fazer isso em dias tão atropelados e sobrecarregados?
Gosto de observar as pessoas que lidam com o tempo de jeito diferente. Sem pretensões. Sem esperar que cada dia seja o dia D. Admiro com certa inveja. E sigo, incompetente na tarefa de aprender com estas práticas. No meu cotidiano, tenho o prazer de conhecer muitas pessoas assim. Que vivem. Simplesmente, vivem.
Já eu, tenho pressa. Tenho sede de transformação. E não tenho mais a energia que tinha antes pra fazer essas transformações acontecerem.
Acabo por concluir que o que tem afastado minhas borboletas é essa minha mania de querer ser feliz a qualquer custo. De querer controlar o tempo. De querer ser dona do meu tempo.
E aí, me vem o Rubem Alves e diz:
"
Ricardo Reis disse a mesma coisa num poema mais curto: "Dia em que não gozaste não foi teu:/ Foi só durares nele. Quanto vivas/ Sem que o gozes, não vives./ Não pesa que amas, bebas ou sorrias:/ Basta o reflexo do sol ido na água/ De um charco, se te é grato./ Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas/ Seu prazer posto, nenhum dia nega/ A natural ventura". Beber o encanto de estar no mundo! Não importa que ele nos venha em pequenos fragmentos de alegria, de riso, de compaixão, de amizade, de silêncio, arroz e feijão, o abraço de amor, a poesia, as coisas do dia-a-dia. Se você não sabe sobre que estou falando, por favor, leia a poesia de Adélia Prado. São sacramentos, fragmentos de uma felicidade que nos toca de leve, para logo se ir. A felicidade é assim, não é coisa grande que vem para ficar. Sabe disso Guimarães Rosa, que dizia que ela só acontece em raros momentos de distração. Mas é justo assim que Deus vem, quando estamos distraídos, eternidade num grão de areia, reflexo do sol ido na água de um charco." Esta crônica está num blog que chama "Felicidade só é real quando compartilhada"
É... vou seguir aqui pensando.
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
Desarrumação
Qual a fronteira entre o que foi e o que já não é?
Nos últimos dias, tenho me dedicado, lentamente a organizar minha casa... esvaziar prateleiras... limpar, descartar, doar, guardar, esconder coisas de mim mesma. Colocar outras em evidência.
Organizar as coisas externas ajudam a organizar as coisas internas. Sempre foi assim comigo. Nos meus períodos mais conturbados, o quarto, o guarda-roupa, o escritório apresentavam-se bagunçados.
Não sou nenhuma "super" organizada. mas se a bagunça do lado de fora está demais, por dentro nem se fala.
Me dou conta que essa baderna estava assim há anos. Tinha minhas desculpas... o doutorado, a gravidez e o repouso forçado. a Mariana recém-nascida... a volta ao trabalho... e ía deixando a casa e a vida, revirada.
Cansei disso. Cansei de fingir não ver que a fechadura estava estragada. A luz queimada. A gaveta bagunçada. E comecei a colocar as coisas em ordem. Na minha ordem não tão ordenada assim...
Além de cansar, tais arrumações desarrumam muitas coisas e causam uma certa dor.
Vou em frente. Buscando tomar decisões que me deixem mais em paz. Mais perto da Mari... com mais oxigênio.
No meio do processo, revelações irônicas de desconhecimento do outro. Mas sobrevivo em meio às pilhas de mim mesma e meus pedaços que andam espalhados por aqui.
"Só me deixe aqui quieta... isso passa. Amanhã é outro dia"
Nos últimos dias, tenho me dedicado, lentamente a organizar minha casa... esvaziar prateleiras... limpar, descartar, doar, guardar, esconder coisas de mim mesma. Colocar outras em evidência.
Organizar as coisas externas ajudam a organizar as coisas internas. Sempre foi assim comigo. Nos meus períodos mais conturbados, o quarto, o guarda-roupa, o escritório apresentavam-se bagunçados.
Não sou nenhuma "super" organizada. mas se a bagunça do lado de fora está demais, por dentro nem se fala.
Me dou conta que essa baderna estava assim há anos. Tinha minhas desculpas... o doutorado, a gravidez e o repouso forçado. a Mariana recém-nascida... a volta ao trabalho... e ía deixando a casa e a vida, revirada.
Cansei disso. Cansei de fingir não ver que a fechadura estava estragada. A luz queimada. A gaveta bagunçada. E comecei a colocar as coisas em ordem. Na minha ordem não tão ordenada assim...
Além de cansar, tais arrumações desarrumam muitas coisas e causam uma certa dor.
Vou em frente. Buscando tomar decisões que me deixem mais em paz. Mais perto da Mari... com mais oxigênio.
No meio do processo, revelações irônicas de desconhecimento do outro. Mas sobrevivo em meio às pilhas de mim mesma e meus pedaços que andam espalhados por aqui.
"Só me deixe aqui quieta... isso passa. Amanhã é outro dia"
segunda-feira, junho 27, 2011
e a roda viva trouxe o frio

27 de junho. Mais uma vez este blog ficou às traças... mas a vida real tem me tomado bastante tempo.
Já fiz aniversário.
Já chegou o inverno.
Já teve lua gigante.
E muitos ciclos da lua.
Já tomei bastante vinho. E muita, muita água.
Mas ainda não consigo engolir certas coisas...
São João já veio e já foi.
O semestre está acabando.
E assim a vida segue... correndo... se arrastando. E eu, às vezes lutando pra guiar mas, na maioria das vezes, sendo arrastado por ela.
sábado, maio 07, 2011
Inferno astral...
Faltam 21 dias pro meu aníver de 35 anos.
Confesso que estou um tanto assustada com essa idade... Lembro daquele filme com a Marieta Severo, no qual ela repensava, como teria sido sua vida se tivesse feito outras escolhas.
Posso dizer que sou uma pessoa realizada e privilegiada. De certa forma, construí quase todas as coisas com as quais sonhei. Ter tudo seria, de alguma forma, sem graça.
Penso que a tarefa no ciclo que estou quase iniciando seja desenvolver a serenidade e a paciência. Preciso aceitar, como dependente de meus vícios de querer ajeitar tudo e todos, que não sou capaz de fazer isso. E reaprender a viver com esse defeito.
Na real, preciso encarar isso não como um defeito. Mas como parte de mim.
E preciso, definitivamente, mudar coisas que estão me incomodando. Mal comparando. Tem sapatos me machucando. Roupas desconfortáveis. Sons altos demais. Preciso simplificar.
Por hoje é isso...
Confesso que estou um tanto assustada com essa idade... Lembro daquele filme com a Marieta Severo, no qual ela repensava, como teria sido sua vida se tivesse feito outras escolhas.
Posso dizer que sou uma pessoa realizada e privilegiada. De certa forma, construí quase todas as coisas com as quais sonhei. Ter tudo seria, de alguma forma, sem graça.
Penso que a tarefa no ciclo que estou quase iniciando seja desenvolver a serenidade e a paciência. Preciso aceitar, como dependente de meus vícios de querer ajeitar tudo e todos, que não sou capaz de fazer isso. E reaprender a viver com esse defeito.
Na real, preciso encarar isso não como um defeito. Mas como parte de mim.
E preciso, definitivamente, mudar coisas que estão me incomodando. Mal comparando. Tem sapatos me machucando. Roupas desconfortáveis. Sons altos demais. Preciso simplificar.
Por hoje é isso...
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domingo, fevereiro 06, 2011
Um dia perfeito
... Não vou me deixar embrutecer, eu acredito nos meus ideais.
Podem até maltratar o meu coração
Mas meu espírito ninguém vai conseguir quebrar...
Podem até maltratar o meu coração
Mas meu espírito ninguém vai conseguir quebrar...
sábado, agosto 21, 2010
Sobre o que se olha e sobre o que se vê (III)
Já cantou La Negra, que "El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos / Yo el amor no lo reflejo como ayer / En cada conversación cada beso cada abrazo / Se impone siempre un pedazo de razón".
A razão também domina o que se olha e o que se vê.
A razão é que não deixa o amor ter o mesmo reflexo de antes.
A razão não deixa a criança de cada um brilhar e se expor.
A razão não permite que as diferenças convivam de forma a se complementar e assim, ser mais.
A propriedade da razão liquida conversas que poderiam não ter fim... Alguém "tem" e o outro alguém não. Rompe a troca. Rompe o diálogo. Desqualifica o outro.
Mas o tema aqui é o que se vê, como se vê, como se olha.
Considerando o tempo já vivido e as coisas que fui aprendendo nesse tempo, tenho a ideia de que a razão limita o olhar. Porque o direciona para o que possa ser importante. São. Coerente.
Quero olhar com olhos de criança. Descobrir o inusitado. O detalhe. O reflexo. Assim vou poder desvelar o encoberto. Ver o outro lado.
Quero olhar o lado de dentro. Ir além da aparência, na essência.
Não creio que é a razão que me leva a esse ponto de vista.
A razão também domina o que se olha e o que se vê.
A razão é que não deixa o amor ter o mesmo reflexo de antes.
A razão não deixa a criança de cada um brilhar e se expor.
A razão não permite que as diferenças convivam de forma a se complementar e assim, ser mais.
A propriedade da razão liquida conversas que poderiam não ter fim... Alguém "tem" e o outro alguém não. Rompe a troca. Rompe o diálogo. Desqualifica o outro.
Mas o tema aqui é o que se vê, como se vê, como se olha.
Considerando o tempo já vivido e as coisas que fui aprendendo nesse tempo, tenho a ideia de que a razão limita o olhar. Porque o direciona para o que possa ser importante. São. Coerente.
Quero olhar com olhos de criança. Descobrir o inusitado. O detalhe. O reflexo. Assim vou poder desvelar o encoberto. Ver o outro lado.
Quero olhar o lado de dentro. Ir além da aparência, na essência.
Não creio que é a razão que me leva a esse ponto de vista.
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domingo, agosto 15, 2010
Sobre o que se olha e sobre o que se vê (II)
Adoro Rubem Alves. Ler Rubem Alves me ajuda a ser uma pessoa melhor, uma professora melhor, uma assistente social melhor. Esta crônica, fala do olhar e do ver. Segue a "pauta" que está na minha cabeça...
A arte de ver (Rubem Alves)
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Aconteceu, entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Entretanto, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente a cebola, de objeto a ser comid,o se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora tudo o que vejo me causa espanto...” Ela se calou esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui até a estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: “...rosa de água com escamas de cristal...” Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver.”
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física ótica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física. William Blake sabia disso é afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei isso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos sinto-me como Moisés, diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de usa casa, porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
A Adélia Prado diz: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. O Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso é afirmou que a primeira tarefa da educação era ensinar a ver. O Zen Budismo concorda e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no Zen Budismo mas o fato é que escreveu “ Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram...”
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus Ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão “os seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote no “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia, eles um humilde operário, um operário em construção”.
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na Caixa de Ferramentas eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas quando os olhos estão na Caixa dos Brinquedos eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na Caixa de Ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na Caixa dos Brinquedos são os olhos das crianças. Para ter olhos brincalhões é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas...”
Por isso, porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver, eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar para os assombros que crescem nos desvão da banalidade cotidiana. Como o Jesus Menino do poema do Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos...”
Este e outros maravilhosos textos podem ser encontrados na "Casa de Rubem Alves"
Sobre o que se olha e sobre o que se vê (I)
Já faz tempo que essa questão de pensar no que olhamos e no que vemos me chama atenção. Por isso, vou fazer algumas reflexões sobre este sentido, tão aguçado em mim. E tão limitado.
Pra começar, se me perguntam o que mais me chama atenção em alguém é o olhar. Adoro me comunicar pelo olhar, mesmo sabendo que corro o risco de não ser entendida. Gosto de exercitar "falar pelo olhos".
Tenho algumas pessoas com as quais isso é muito fácil. Outras, nem berrando com a maior potência possível das minhas cordas vocais, me faço entender.
Os olhos falam... comer com os olhos... ver para crer... de tudo, ver o que está por detrás do visto é o maior desafio,na maioria das vezes. Mas, tem outras, em que ver o que está diante do nariz é o mais dificil. Daí, entra o medo. O desviar o olhar. Olhar sem ver.
Desculpem a viagem. Juro que tudo isso faz muito sentido pra mim. Talvez quando eu for escrevendo mais seja possível entender. Talvez, precise ler nos meus olhos de que estou falando.
Pra começar, se me perguntam o que mais me chama atenção em alguém é o olhar. Adoro me comunicar pelo olhar, mesmo sabendo que corro o risco de não ser entendida. Gosto de exercitar "falar pelo olhos".
Tenho algumas pessoas com as quais isso é muito fácil. Outras, nem berrando com a maior potência possível das minhas cordas vocais, me faço entender.
Os olhos falam... comer com os olhos... ver para crer... de tudo, ver o que está por detrás do visto é o maior desafio,na maioria das vezes. Mas, tem outras, em que ver o que está diante do nariz é o mais dificil. Daí, entra o medo. O desviar o olhar. Olhar sem ver.
Desculpem a viagem. Juro que tudo isso faz muito sentido pra mim. Talvez quando eu for escrevendo mais seja possível entender. Talvez, precise ler nos meus olhos de que estou falando.
quinta-feira, julho 15, 2010
As dores do crescimento
Há algum tempo, escrevi para minha amiga poia sobre as dores do crescimento... Quando criança, sofria de dores na panturrilha (batata da perna) quase todos os dias. Minha mãe dizia que era dor de crescimento. E realmente, cresci bastante. Minhas pernas são bemmmmmmm compridas.
A conversa com a Poia era sobre outro crescimento. Aquele que faz a gente perceber que o mundo não vai mudar tão rápido quanto sonhávamos, que coisas tristes de verdade nos aconteciam e marcavam e mudavam a vida pra sempre. Essa dor, não sabíamos descrever, nem prever quando iria passar.
Mas ela passa. Num dia, sem saber como, nem porquê, percebemos que a "perna" não dói mais. Crescemos... Mas ficam muitas marcas. Umas quase imperceptíveis, outras profundas.
"Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento" (Clarice Lispector).
A conversa com a Poia era sobre outro crescimento. Aquele que faz a gente perceber que o mundo não vai mudar tão rápido quanto sonhávamos, que coisas tristes de verdade nos aconteciam e marcavam e mudavam a vida pra sempre. Essa dor, não sabíamos descrever, nem prever quando iria passar.
Mas ela passa. Num dia, sem saber como, nem porquê, percebemos que a "perna" não dói mais. Crescemos... Mas ficam muitas marcas. Umas quase imperceptíveis, outras profundas.
"Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento" (Clarice Lispector).
quarta-feira, junho 30, 2010
Tempo de recolher
Final de mês. Final de semestre. Muitas coisas a fazer. Mas maiores são as listas das coisas a pensar. Decidir. Optar. Escolher.
Não tem sido raras as vezes que eu queria muito que alguém o fizesse por mim. Escolhesse pra mim, decidisse pra mim, avaliasse pra mim... Me pegasse pela mão e falasse: "agora, chega. É por aqui e pronto".
Estou, definitivamente, com dificuldade de recolher os pedaços de mim que andam espalhados por aí. Não reconheço alguns. Outros trato de pegar rápido, antes que voem.
Rogo aos que me conheceram em outras épocas que não me deixem perder totalmente.
É isso.
Notei que ando escrevendo com mais reticências do que normalmente... não acho ruim...
É tempo de hibernar, de refletir e esperar a primavera pra renascer.
Não tem sido raras as vezes que eu queria muito que alguém o fizesse por mim. Escolhesse pra mim, decidisse pra mim, avaliasse pra mim... Me pegasse pela mão e falasse: "agora, chega. É por aqui e pronto".
Estou, definitivamente, com dificuldade de recolher os pedaços de mim que andam espalhados por aí. Não reconheço alguns. Outros trato de pegar rápido, antes que voem.
Rogo aos que me conheceram em outras épocas que não me deixem perder totalmente.
É isso.
Notei que ando escrevendo com mais reticências do que normalmente... não acho ruim...
É tempo de hibernar, de refletir e esperar a primavera pra renascer.
quarta-feira, abril 07, 2010
Socorro!!!
http://www.youtube.com/watch?v=3tnsqslFj7I&feature=related
Socorro eu não estou sentindo nada...
Socorro, alguém me dê um coração
Que este já não bate nem apanha...
Qualquer coisa que se sinta...
São tantos sentimentos deve ter algum que sirva!
Socorro eu não estou sentindo nada...
Socorro, alguém me dê um coração
Que este já não bate nem apanha...
Qualquer coisa que se sinta...
São tantos sentimentos deve ter algum que sirva!
quarta-feira, setembro 16, 2009
Marcha dos usuários pela reforma psiquiátrica antimanicomial

No próximo dia 30, uma série de grupos de usuários de saúde mental de todo o país, seguirá, em marcha para Brasília, para defender a efetiva reforma psiquiátrica no país.
São propostas da marcha:
- Defender o Sistema Único de Saúde (SUS) ressaltando o papel fundamental que o Sistema tem na Reforma Psiquiátrica Antimanicomial, que é oferecer estrutura adequada e melhores condições de atendimento para tratamento de portadores de sofrimento mental
- Defender o cumprimento da Lei da Reforma Psiquiátrica (10.216/01)
- Reivindicar a realização da IV Conferência Nacional de Saúde Mental (9 anos após a III, realizada em 2001), que tem a importância de discutir passos fundamentais para o avanço da Reforma Psiquiátrica Antimanicomial, além de estabelecer novos marcos para profissionais da área e portadores de transtornos mentais, que estão cada dia mais atuantes socialmente.
- Exigir a efetiva implantação do "Programa de Volta para Casa", criado pelo Ministério da Saúde em 2003 com o objetivo de reintegrar socialmente pessoas com transtornos mentais que passaram por longas internações. O programa dispõe também de um auxílio financeiro para o beneficiário ou seu representante legal.
Defendo a reforma psiquiátrica, luto pelo fim do preconceito e principalmente, pelo convívio com a diferença e respeito sempre.
Para saber mais, dá uma olhada no blog da Marcha.
"A liberdade é terapêutica" (Franco Basaglia)
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Questão Antimanicomial,
Reforma Psiquiátrica
terça-feira, setembro 12, 2006
O grito (Edvard Munch)
A loucura está solta...
A rede de atenção à sáude mental de Pelotas está passando por uma crise. Trata-se de uma crise institucional e política. Ainda que os serviços existam (e não são poucos), que existam muitos profissionais, etc, a cidade está perdendo seu caráter antimanicomial... A "reforma psiquiátrica" tem-se mostrado mais reformista e menos transformadora. Às vezes, parece uma simples troca de lugar. Vários minimanicômios (capscômios). De maneira nenhuma critico o esforço dos trabalhadores, usuários e familiares em constituirem estes serviços como espaços alternativos ao hospital psiquiátrico. Mas penso que estamos longe - muito longe - de consolidarmos a reforma por aqui.
Há poucos dias, o CAPS Csstelo lançou um manifesto, visto que, devido às más condições do prédio foram deslocados para uma outra casa. O Manifesto foi uma forma de tentar garantir o retorno ao prédio após a reforma. Penso que devemos lutar sempre e de forma total. Não podemos fragmentar as lutas, as equipes, as categorias, etc. Nada mais institucionalizante e manicomial do que isto.
Espero que os mentaleiros acordem e voltem a lutar. A construção de uma outra relação com a loucura se dá diariamente, cotidianamente e nas pequenas relações.
Há poucos dias, o CAPS Csstelo lançou um manifesto, visto que, devido às más condições do prédio foram deslocados para uma outra casa. O Manifesto foi uma forma de tentar garantir o retorno ao prédio após a reforma. Penso que devemos lutar sempre e de forma total. Não podemos fragmentar as lutas, as equipes, as categorias, etc. Nada mais institucionalizante e manicomial do que isto.
Espero que os mentaleiros acordem e voltem a lutar. A construção de uma outra relação com a loucura se dá diariamente, cotidianamente e nas pequenas relações.
Reabilitar a quem???
Há um pouco mais de um ano, tive a possibilidade de enxergar, com olhos mais crus, a realidade do que, até então, eu via com olhos ingênuos nos serviços de reabilitação psicossocial. Para conseguir ver, foi necessário que me esfregassem a realidade nos olhos e que me sacudissem até sentir doloridas todas as minhas articulações. Foi uma experiência terrível. Fiquei sem chão. Me faltou o ar. Experimentei uma sensação inexplicável de morte.
De fato, algo morreu depois daqueles dias.
Hoje, alguém importante morreu. Essas letras custam a sair para compor tão duras palavras. Hoje, se foi alguém que representava uma possibilidade real de refazer a vida, de reabilitar os seres humanos. Não os que experimentaram a loucura e o tratamento para a loucura. Mas a possibilidade de reabilitar àqueles que tratam a loucura, que imaginam-se capacitados para entender e cuidar do louco. Foi-se alguém que acreditava e que usava sua sanidade para buscar construir uma outra relação com a loucura. Alguém que não conseguia engolir a seco as crueldades de uma sociedade que exclui, segrega, oprime, ofende, magoa, maltrata, não só aos ditos loucos, mas a todos que de uma forma ?louca? acreditam ser possível construir um outro mundo.
Fica um vazio. Um grito mudo. Um movimento inerte.
De certa forma, o mesmo vazio que senti há um ano atrás. Por outro lado, um vazio ainda mais profundo.
Sinto-me privilegiada pela convivência, pelo aprendizado, pela frágil força desta pessoa tão especial.
Espero que um dia, nós, os técnicos, os sãos, os racionais, possamos nos dar contar de que, quem precisa se reabilitar nessa relação somos nós e nossas teorias inúteis, estéreis e preconceituosas e que possamos aprender que o afeto, a convivência, a troca e o cuidado são as principais tecnologias a serem utilizadas nesse cotidiano com a loucura.
(Pelotas, 21/07/06)
Para o seu Almiro... saudade e respeito.
De fato, algo morreu depois daqueles dias.
Hoje, alguém importante morreu. Essas letras custam a sair para compor tão duras palavras. Hoje, se foi alguém que representava uma possibilidade real de refazer a vida, de reabilitar os seres humanos. Não os que experimentaram a loucura e o tratamento para a loucura. Mas a possibilidade de reabilitar àqueles que tratam a loucura, que imaginam-se capacitados para entender e cuidar do louco. Foi-se alguém que acreditava e que usava sua sanidade para buscar construir uma outra relação com a loucura. Alguém que não conseguia engolir a seco as crueldades de uma sociedade que exclui, segrega, oprime, ofende, magoa, maltrata, não só aos ditos loucos, mas a todos que de uma forma ?louca? acreditam ser possível construir um outro mundo.
Fica um vazio. Um grito mudo. Um movimento inerte.
De certa forma, o mesmo vazio que senti há um ano atrás. Por outro lado, um vazio ainda mais profundo.
Sinto-me privilegiada pela convivência, pelo aprendizado, pela frágil força desta pessoa tão especial.
Espero que um dia, nós, os técnicos, os sãos, os racionais, possamos nos dar contar de que, quem precisa se reabilitar nessa relação somos nós e nossas teorias inúteis, estéreis e preconceituosas e que possamos aprender que o afeto, a convivência, a troca e o cuidado são as principais tecnologias a serem utilizadas nesse cotidiano com a loucura.
(Pelotas, 21/07/06)
Para o seu Almiro... saudade e respeito.
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